O Samba da Garoa Contra a Globalização Cultural

Em um cenário de megablocos e importação de tradições de outros estados, defensores do regionalismo reivindicam a valorização das raízes locais e alertam para o apagamento da memória de ícones como Geraldo Filme e Adoniran Barbosa.

O Samba da Garoa Contra a Globalização Cultural
O Samba da Garoa Contra a Globalização Cultural (Foto: Reprodução)

Por Elder Oliveira
São Paulo é frequentemente celebrada por sua diversidade e por ser uma "cidade de todos", mas, no campo da cultura popular, essa abertura tem gerado um debate acalorado sobre o apagamento das raízes locais. O Carnaval de rua paulistano, que registrou um crescimento explosivo na última década, tornou-se o palco de um conflito simbólico: de um lado, o entretenimento de massa que importa fórmulas de sucesso de outros estados; de outro, a resistência de quem defende que o samba paulistano possui sotaque, fundamento e história próprios que não podem ser diluídos.
Famelli Júnior tem se destacado como um defensor ferrenho do regionalismo. Para ele, a cultura não deve ser tratada como um produto genérico, mas como um reflexo direto do território e de sua ancestralidade. O pesquisador critica a crescente ocupação do espaço público paulistano por símbolos alheios à sua formação histórica, como o Galo da Madrugada pernambucano ou os grandes trios elétricos baianos.
A crítica não é um ataque às outras culturas, mas uma defesa da própria. Famelli argumenta que a importação de modelos prontos impede que a cidade valorize seus próprios ícones, como Geraldo Filme e Adoniran Barbosa. Ele é enfático ao dizer que o pertencimento cultural não pode ser fabricado: "Eu só vou me interessar pelo Galo da Madrugada o dia que eu for para Recife, Aqui em São Paulo? Não! Aqui em São Paulo não me interessa o Galo da Madrugada."
Essa descaracterização atinge também a forma como o cidadão se relaciona com a música. Para Famelli, existe uma confusão entre consumir um gênero musical e viver a cultura de uma escola de samba. Ele defende que a força do Carnaval de São Paulo reside em suas escolas de bairro e cordões tradicionais, e não na reprodução de sucessos de rádio ou festas externas.
O pesquisador encerra com uma reflexão profunda sobre o que realmente importa para a preservação da memória local: "A música é uma linguagem universal, agora a cultura não, cultura é regionalizada, o que adianta eu falar que eu sou Mangueira? Não sou Mangueira, Eu não moro na Mangueira! Eu não moro no Rio de Janeiro, então por que é que a cultura do Rio de Janeiro tem que me interessar? Não tem!" O recado é claro, para o samba paulista sobreviver, ele precisa, antes de tudo, ter orgulho de ser paulista.


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